Beatriz Mattiuzzo

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Opinião

Esqueça Marte: nosso futuro está nos oceanos da Terra

A ciência confirmou: no ano passado, o aumento da temperatura média na superfície do planeta foi maior do que 1,5°C em relação a níveis pré-industriais - um amargo spoiler de um futuro em que o Acordo de Paris não seja cumprido.

O filósofo grego Heráclito dizia que "nada é permanente, exceto a mudança" - mas duvido que ele imaginava que a mudança, no caso do clima, viria tão rápido, com tanto microplástico e tão pouca ação.

Troquemos os bilhões de dólares que regem o mundo por bilhões de anos e voltemos às origens. Há mais de 3 bilhões de anos, foi no oceano que a vida começou - aquela história da sopa primordial, com os elementos essenciais.

Alguns milhões de anos depois vieram as cianobactérias, as primeiras fotossintetizantes, que começaram a liberar oxigênio. Com o tempo, surgiram as algas verdes, depois as florestas, e só então chegamos ao ar que respiramos hoje, com altas concentrações de oxigênio, que ainda vem majoritariamente do mar.

Mas não bastava nos dar a vida e gerar mais da metade do oxigênio de que precisamos: o oceano ainda absorve 25% de todas as emissões de dióxido de carbono e retém 90% do calor em excesso gerado por essas emissões.

Tudo isso, lógico, faz a superfície do mar esquentar. Mas, enquanto a superfície do mar esquenta, as partes do oceano mais profundas conseguem manter temperaturas bem mais frias - e aí que está a chave da regulação térmica do planeta.

Lembra daquela água gelada que invadiu as praias do Rio de Janeiro no Carnaval? Um dia a água estava a 30 °C e, do nada, chegou a 8 °C na beira da praia. Pois bem: essa diferença de temperatura não é porque os vendedores da praia esvaziaram o cooler de gelo no mar, é oportunidade.

É isso que explora a tecnologia Otec (Ocean Thermal Energy Conversion): gerar energia limpa usando a diferença de temperatura entre a água morna da superfície e a água fria das profundezas, entre 800 e mil metros.

Para funcionar bem, a diferença precisa ser de pelo menos 20°C — algo que acontece o ano todo em boa parte do mundo tropical, inclusive no nosso litoral, ao norte de Vitória. É como se o oceano já fosse uma gigantesca bateria solar natural: o polo quente em cima, o frio embaixo.

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O processo é engenhoso, mas segue um princípio já muito usado no mundo todo: o ciclo Rankine. Em termelétricas, por exemplo, se esquenta água queimando combustíveis fósseis e o vapor de água faz girar turbinas, produzindo eletricidade.

Na versão da Otec, os 20°C de diferença da água marinha são suficientes para que a água quente do mar faça a amônia evaporar (amônia ferve fácil), esse vapor gira uma turbina e gera eletricidade. Depois, o vapor de amônia é resfriado pela água gelada das profundezas, vira líquido de novo e recomeça o ciclo. Tudo isso sem queimar nada, sem fumaça, continuamente, e sem precisar minerar a terra.

Se parece futurista demais para você, saiba que, desde os anos 1990, Otec já é usada em lugares como o Havaí, Okinawa (Japão), Malásia e Índia — especialmente em ilhas, onde o acesso à energia e à água potável é mais difícil (e caro). Aliás, a tecnologia pode ser integrada a sistemas de dessalinização, agricultura marinha, criação de peixes e até produção de alimentos com o uso da água rica em nutrientes que vem do fundo do mar.

Faz sentido pensar nisso por aqui. Entre Salvador e Natal, há regiões do oceano com variação de temperatura e relevo ideais para a Otec. Em Fernando de Noronha, por exemplo, a Otec poderia ser uma opção já que a ilha queridinha dos famosos ainda depende principalmente de termelétricas a diesel e tem que dessalinizar água.

Ilhas, aliás, são ambientes de grande importância. Elas ensinam, na prática, o que significa viver com recursos limitados, (re)aproveitar tudo, entender que lixo é coisa de humano e que não existe esse conceito na natureza.

São miniaturas de planeta - e quando temos tanta dificuldade em nos enxergar como natureza, elas oferecem uma oportunidade única. Tudo isso sem precisar embarcar em sonhos interplanetários duvidosos, que custam bilhões, consomem recursos daqui e prometem milagres lá em Marte.

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Há quem troque bilhões de anos de constituição da Terra por bilhões de dólares em planilhas. Mas talvez esteja nas ilhas, e não nos foguetes, a pista mais simples de como permanecer por aqui.

*Colaborou Flaminio Levy Neto, engenheiro mecânico e mestre em Engenharia pelo ITA. Ph.D. em engenharia, lecionou no ITA e na UnB, e publicou três livros técnicos. Foi consultor ad hoc da CAPES e do CNPq. Atualmente, é consultor ad hoc na FACEPE.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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