Recifes de corais geram até R$ 167 bilhões ao Brasil, diz pesquisa inédita
Uma pesquisa inédita no Brasil avaliou que os recifes de corais geram até R$ 167 bilhões ao país em serviços de proteção costeira e turismo.
O valor foi divulgado no estudo "Oceano sem mistérios - Desvendando os recifes de corais", feito pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, em parceria com a agência Bloom Ocean.
Nosso objetivo é fortalecer a elaboração de políticas públicas de fomento à conservação, incentivar a comunicação qualificada, proteger a zona costeira brasileira e valorizar a biodiversidade de recifes de corais. Malu Nunes, diretora executiva da Fundação Grupo Boticário
No Brasil, os recifes de corais se estendem por 3.000 km, ao longo da costa do norte do Espírito Santo até o Maranhão.
Conforme afirma o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o país é o único que concentra ambientes como esse em todo o Atlântico Sul.
No planeta, os recifes de corais ocupam menos de 0,1% do fundo do oceano, o que não quer dizer que eles tenham baixa importância ecológica e econômica, muito pelo contrário.
É nos recifes de corais que vive uma a cada quatro espécies marinhas, neles são encontrados 65% dos peixes do mar.
Por isso, os recifes de corais são considerados os ecossistemas mais diversos da Terra.
No entanto, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), até 90% desse ecossistema podem ser perdidos até 2050.
Valorar os recifes de corais é importante quando o argumento que vem contra a unidade de conservação parte do recurso financeiro. Janaína Bumbeer, bióloga, doutora em Ecologia e Conservação Marinha e gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário
Recifes de corais protegem cidades inteiras
Só na região nordeste, 33% da população vive em municípios litorâneos, segundo dados do último censo realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Entre as 10 cidades costeiras mais populosas, sete estão na região dos recifes de corais. A quarta, Recife, que possui 1,5 milhão de habitantes, foi listada no último relatório do IPCC como a capital brasileira mais ameaçada pelo avanço do mar — e a 16ª cidade do planeta que corre mais risco.
Ecossistemas como os recifes de corais ajudam, por outro lado, a proteger a população de catástrofes naturais causadas pelas mudanças climáticas como tempestades, ressacas e erosões.
Foi com base nisso que a agência Bloom Ocean calculou o valor da proteção dos recifes de corais para o Brasil.
A conclusão foi que cada quilômetro quadrado de recife de corais gera um valor de R$ 941 milhões ao ano em dano evitado.
Nossa primeira etapa de trabalho foi investigar quais eram os métodos disponíveis, usando dados já publicados, pesquisas secundárias porque a gente não teria tempo hábil para produzir esses dados. Amanda Albano, oceanógrafa e sócia da Bloom Ocean
Para o estudo foram selecionados quatro municípios que representam cidades com densidades populacionais típicas do litoral do nordeste brasileiro e que possuem uma área significativa de recifes de corais do tipo franja próximos à costa: Recife e Ipojuca, em Pernambuco, e Maragogi e São Miguel dos Milagres, em Alagoas.
O valor obtido foi extrapolado para todas as cidades que possuem recifes de corais, considerando o tamanho, infraestrutura e população de cada uma.
Também foram avaliados os prejuízos evitados em áreas residenciais, como casas e edifícios; comerciais; industriais, como fábricas, indústrias e portos; e na infraestrutura pública urbana, como estradas, rodovias, pavimentos e calçadas.
O dado, segundo explicou Amanda Albano, é apenas uma fotografia da costa brasileira no momento em que a pesquisa foi realizada, uma vez que mais prédios podem ser construídos no litoral, o nível do mar pode aumentar e a densidade populacional também, por exemplo.
Recifes de corais atraem turistas
Apesar de não serem multicoloridos como os corais do oceano pacífico e índico, os recifes de corais brasileiros atraem milhares de turistas para mergulhos em praias de cidades nordestinas.
Fernando de Noronha e Ipojuca (Porto de Galinhas), em Pernambuco; Maragogi e São Miguel dos Milagres, em Alagoas; e Caravelas (Abrolhos), na Bahia, são exemplos dos locais mais procurados para esse tipo de turismo.
E foi através de um cálculo com base em uma análise de mercado (valor de passagem, hospedagem, alimentação, passeios etc) e nas receitas com atividade de lazer e recreação nesses cinco principais destinos que o estudo descobriu que, por ano, o turismo brasileiro fatura R$ 7 bilhões com os recifes de corais.
Esse valor corresponde a cerca de 5% do PIB do turismo em todo o Brasil.
Ou seja, cada quilômetro quadrado de recife de coral saudável é capaz de gerar R$ 62,7 milhões ao ano em receitas ligadas ao turismo de sol e praia, mergulho e snorkeling.
Esse valor acaba beneficiando diretamente gestores públicos, empresários, empreendedores locais, a comunidade local e comunidades tradicionais.
Protegendo os recifes de corais
O estudo "Oceano sem mistérios - Desvendando os recifes de corais" também lista uma série de ações que tomadores de decisão e a sociedade como um todo podem adotar para a proteção dos recifes de corais. Segue algumas delas:
Poder público
- Direcionar recursos para pesquisas, implementar impostos relacionados à preservação das costa, melhorar o investimento em áreas de conservação e em pessoal.
- Monitorar ecossistemas, garantindo que dados sobre os recifes de corais sejam públicos e transparentes.
- Fortalecer unidades de conservação, promover estratégias de turismo sustentável, produzir campanhas de sensibilização da população sobre o tema, dar suporte ao turismo de base comunitária.
- Incorporar soluções baseadas na natureza em políticas públicas de conservação e prevenção.
Sociedade
- Praticar turismo responsável.
- Reduzir sua emissão de CO2.
- Compartilhar e disseminar informações sobre a importância dos corais.
- Cobrar gestores públicos por políticas e investimento em conservação de áreas de recifes de corais.
Esperamos que o estudo estimule um olhar mais atento da sociedade para esses ecossistemas e inspire uma melhoria nos esforços de conservação. Malu Nunes, diretora executiva da Fundação Grupo Boticário
A jornalista viajou a convite da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.
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