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Opinião

A Fórmula 1 paga bem seus funcionários? É bem menos do que você imagina

Uma postagem de um ex-engenheiro da Red Bull nas mídias sociais colocou o dedo em uma ferida que está aberta no mundo da Fórmula 1: como um efeito colateral da regra que limita os gastos das equipes e que é importante para a saúde financeira das equipes é a queda nos salários pagos a mecânicos e engenheiros que trabalham na categoria.

"Acabo de ter uma conversa com uma pessoa que recruta pessoas para as equipes sobre uma vaga como engenheiro de corrida na F1. O salário máximo deles era menos do que eu estava ganhando como engenheiro de performance em regime de tempo parcial no Mundial de Endurance em uma equipe de LMDh", publicou Blake Hinsey, engenheiro que passou 10 anos na F1 entre 2012 e 2022, trabalhando na Force India e na Red Bull.

"Por que os chefes de equipes não estão pedindo para que o teto orçamentário aumente para acomodar o crescimento do custo de vida e da inflação? É porque, nas equipes que estão lucrando, é provável que os chefes e acionistas possam ganhar uma parte do que eles não estão gastando."

Na verdade, o teto orçamentário, que foi adotado em 2021, tem correção anual da inflação, ao contrário do que o ex-engenheiro diz. Para 2025, com todas as correções, todo o gasto relacionado à performance das equipes tem que ficar abaixo de cerca de 150 milhões de dólares. Aqui eu explico como funcionam todos esses cálculos.

Salário abaixo da média e ambiente tóxico

No entanto, é normal ouvir queixas de salários muito defasados em relação a outros setores do automobilismo ou mesmo em comparação com outras funções parecidas na área de engenharia em outros tipos de indústria. Em 2024, houve relatos nas mídias sociais de profissionais contratados por valores bem abaixo até mesmo da média salarial no Reino Unido (onde estão sediadas a maioria das equipes da Fórmula 1).

Os salários de entrada para engenheiros, de acordo com estes relatos, estariam bem abaixo das 30 mil libras por ano, e a média do país é de acima de 38 mil libras (cerca de 280 mil reais por ano). Existe no país um cálculo de padrão de renda mínima, que é atualmente de 29.500 libras.

Além de oferecer um salário de entrada mais baixo, as equipes grandes também tiveram que 'limpar' o quadro de funcionários para se adequar ao teto, e o que se viu claramente no paddock foi uma renovação, com profissionais menos experientes (e mais baratos) sendo contratados.

A questão é que, ao mesmo tempo, o calendário foi ficando mais inchado. Hoje são 24 corridas, e o teto orçamentário também acaba inibindo a possibilidade de rotação dos funcionários. Simplesmente não dá para ter duas equipes de corrida. Engenheiros e mecânicos não costumam ir a todas as provas em todas as equipes, mas a possibilidade de troca, mantendo o mesmo nível na equipe de pista, é limitada.

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Com esse calendário longo, o que se comenta muito no paddock é que os profissionais que estão chegando não ficam muito tempo, ou logo pedem para serem deslocados para uma posição na fábrica. Simplesmente, a conta do salário que recebem e do que a rotina de viagens e trabalho em um ambiente de alto nível de estresse, com longos períodos longe da família (principalmente quando há três corridas em finais de semana seguidos, o que ocorre três vezes no calendário) acaba não batendo.

Ao final da temporada de 2021, um mecânico escreveu um relato anônimo forte à "Autosport" relatando o abuso de remédios "que um médico normal não prescreveria" para mascarar dores, rotinas de 12 horas de trabalho, e ambiente tóxico e de alta pressão, ao mesmo tempo que os salários estavam estagnados.

"Me preocupo com o futuro a longo prazo porque, além de todo o estresse e tensão causados, escreveu o mecânico. "Se alguma equipe pensa que pode promover alguém novo e jovem de uma categoria de base sem experiência, e espera que ele ganhe campeonatos no futuro, então não está entendendo a realidade do esporte."

O teto orçamentário é ruim?

Lando Norris foi ultrapassado na largada por Max Verstappen no GP da Holanda
Lando Norris foi ultrapassado na largada por Max Verstappen no GP da Holanda Imagem: Divulgação/X @F1

O controle dos gastos das equipes da Fórmula 1 é um dos fundamentos que têm gerado uma saúde financeira rara nos 75 anos de existência do campeonato. Atualmente, todas as equipes estão atuando perto deste limite, que acaba sendo um dos fatores que promove a maior competitividade dos últimos anos.

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Mesmo quando a Red Bull dominava, o grid inteiro estava dividido por um segundo ou pouco mais do que isso em classificações, o que é bem diferente do que a F1 viu em sua história.

Ao mesmo tempo, a receita da Liberty Media, que detém os direitos comerciais da Fórmula 1, com o esporte tem passado dos 3 bilhões de dólares. Perto de metade disso é repassado aos times.

Essa questão dos salários é definitivamente um ponto a ser discutido.

Recentemente, a Audi conseguiu uma vitória importante ao obter a aprovação de um mecanismo para equiparar a conta dos salários em diferentes países, pois era difícil para eles contratarem engenheiros de alto nível na Suíça, onde fica a equipe e onde os salários praticados são bem mais altos do que no Reino Unido ou Itália (onde ficam Ferrari e Racing Bulls).

Mas existe um sentimento generalizado no paddock a cada despedida (e elas têm sido numerosas ao longo da temporada) que as equipes só vão realmente se mexer quando simplesmente não conseguirem preencher suas vagas ou quando virem uma queda significativa de desempenho.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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