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A fala de Ángel Romero que ninguém quer discutir

O atacante Ángel Romero, maior artilheiro da Neo Química Arena, gerou polêmica ao afirmar, em entrevista à rádio paraguaia ABC Cardinal, que o Brasil é um dos países mais racistas e que deveria resolver seus próprios problemas antes de criticar o racismo em outras nações.

"Aqui é o país com mais racismo. Sempre digo isso, comento isso aqui. Creio que o Brasil tem que consertar primeiro as coisas internamente. Obviamente, eles se preocupam mais com o que acontece fora, no Paraguai, na Espanha, em todos os lugares. Claro que não é bom sofrer esse tipo de discriminação, de racismo, mas aqui, internamente, os brasileiros são muito racistas também entre eles. Creio que primeiro eles têm que arrumar o problema internamente e depois ver o que acontece fora", disse Romero.

A declaração do jogador levanta uma discussão importante: o racismo estrutural e a discriminação dentro do próprio Brasil. Casos como os ataques sofridos por Vinicius Jr. na Espanha e o episódio envolvendo o jovem Luighi, do Palmeiras, durante a Copa Libertadores sub-20 no Paraguai, são amplamente repudiados. No entanto, há um silêncio quando a discriminação acontece dentro do país, principalmente contra populações do Norte e Nordeste e, de forma ainda mais alarmante, contra os povos originários.

Mas a verdade é que o preconceito brasileiro vai além. Somos cruéis com pessoas em situação de rua, com idosos, com deficientes, com obesos, com pessoas muito magras. A sociedade brasileira é uma das mais preconceituosas do mundo.

Romero ainda fez outra declaração forte, que saiu do fundo da alma e trouxe uma denúncia direta:

"Vivo isso diariamente: discriminação, preconceitos, todos os tipos de insulto contra o meu país, contra a minha nacionalidade. Uma vez comentei isso numa coletiva. É algo diário. Eu tenho muito orgulho de onde venho. Se me chamam de índio, tenho orgulho de ser paraguaio, de ser índio, de ter essa raça Guarani. Sempre que me insultam, me sinto lisonjeado, porque é de onde venho. Sou paraguaio, sou dessa raça, não chega a ser um insulto para mim. Como disse antes, diariamente aqui se vê muito racismo. Tudo se complica quando os brasileiros saem para fora. Claro que isso não é bom, é crime, mas os brasileiros precisam primeiro arrumar isso internamente e depois ver o que acontece fora."

Nós, brasileiros, temos que denunciar sempre o racismo e qualquer tipo de preconceito que sofremos no exterior. Temos que apoiar nossos compatriotas. Mas precisamos, também, parar de fazer o mesmo aqui dentro, com estrangeiros e com nós mesmos.

Por que não começamos respeitando mais as pessoas do Norte e do Nordeste, principalmente nas regiões Sul e Sudeste?

Romero simplesmente colocou para fora o que sente, o que passa e o que observa sobre os nossos comportamentos.

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Por que essa declaração não virou um debate nos principais programas esportivos?

Por que não se tornou uma notícia relevante nos principais telejornais do país?

Quando um brasileiro sofre discriminação no exterior, há uma comoção nacional. Mas quando somos nós que cometemos atos discriminatórios e alguém tem coragem de expor isso publicamente, jogamos o assunto para baixo do tapete.

É vergonhoso o que fazemos com estrangeiros no Brasil. Todos sabemos como tratamos paraguaios, bolivianos, venezuelanos, africanos que vivem aqui.

A fala de Ángel Romero precisa ser debatida seriamente. É muito fácil apontar o racismo que sofremos lá fora, mas poucos têm coragem de olhar para dentro e perceber que, muitas vezes, reproduzimos o mesmo comportamento - ou até pior.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.