Tite tem influência entre técnicos do continente e é visto como "esperança"
Existe uma cena que já virou rotina depois de jogos da seleção brasileira nas Eliminatórias ou na Copa América nos últimos anos: no cumprimento entre os treinadores, Tite ouve palavras de admiração e incentivo do oponente em relação ao seu trabalho. O que mudou é que no último domingo (27) isso foi captado pela transmissão — o que nem sempre acontece —, então o momento em que o técnico Gustavo Alfaro, do Equador, diz que o brasileiro "dignifica isso" e "vai terminar sendo campeão do mundo" rodou o continente.
Segundo ouviu o UOL Esporte, tem algo por trás desse gesto. Há cinco anos no comando do Brasil, Tite tem criado uma aura de influência aos técnicos de outras seleções sul-americanas. É como se a admiração pelo trabalho que executa, e também pela duração dele, concedesse uma posição de liderança e ascendência ao brasileiro —algo raro por estas bandas, diga-se. Não se trata de algo calculado ou formalizado, mas não é de hoje e já tem raízes.
Um exemplo: em abril, Arsène Wenger deu uma aula on-line no curso de treinadores da CBF. O ex-técnico do Arsenal trabalha hoje como chefe de desenvolvimento global do futebol da Fifa. Na plateia, Tite usou seu espaço de fala para questionar o francês sobre a falta de enfrentamentos das seleções sul-americanas com as europeias, o que pode diminuir o nível dos desafios de um time como Brasil, Argentina ou Uruguai na preparação para a Copa.
Wenger explicou que a longo prazo a busca será por um calendário universal de seleções e que encaminharia essa demanda internamente na Fifa. A notícia foi comemorada por federações e comissões técnicas da América do Sul, preocupadas com um suposto privilégio da Fifa às questões da Uefa em detrimento da Conmebol. O episódio fez Tite ganhar moral como alguém que leva adiante interrogações coletivas.
Mas essa posição ascendente já vem antes disso. Campeão da Libertadores e do Mundial de Clubes pelo Corinthians, o treinador tirou um ano sabático em 2014. Além do futebol europeu, usou parte de seu intercâmbio para ir à Argentina e se encontrou com Carlos Bianchi, único treinador tetracampeão da Libertadores, então no Boca Juniors. Nos anos seguintes, até hoje, o argentino fala com respeito sobre Tite, um ponto de partida da imagem que só foi reforçada depois que ele chegou à seleção brasileira dois anos depois.
A construção de linhas de diálogo com outros treinadores é uma realidade na rotina de Tite, seja de seleções sul-americanas ou clubes brasileiros. Há dois anos, outro caso se tornou público. Treinador da seleção da Colômbia nas Copas do Mundo de 1990 e 1994, Francisco Maturana integrou a comissão técnica da Venezuela na Copa América de 2019. Depois do empate em 0 a 0 entre as equipes na Arena Fonte Nova, o ídolo sul-americano disse ao pé do ouvido de Tite, diante de vaias, que ele suportasse porque era "a esperança do futebol sul-americano".
Maturana quis dizer que o continente tem perdido terreno para o futebol europeu nos últimos anos e que a seleção brasileira comandada por Tite poderia ajudar a mudar essa história e recolocar a América do Sul no mapa. Europeus vêm de quatro títulos seguidos na Copa do Mundo. Esse discurso do colombiano, que faz paralelo com o de Gustavo Alfaro, é a tônica da relação de admiração que muitos treinadores locais têm por Tite, especialmente das seleções menos competitivas.
Tite dá à seleção brasileira a unidade de um clube. Os jogadores não se reúnem sempre, mas há conceitos de jogo e solidez de desempenho mesmo sem Neymar. Já são cinco anos assim, o que não é nada comum no contexto do futebol sul-americano e de certa forma mostra o que é necessário. É o que todos querem. Fora de campo sei que é um homem solícito, gentil e conciliador, porque a relação não acaba no campo."
José Peseiro, técnico da seleção da Venezuela, ao UOL
O estafe da seleção do Uruguai conta que essa relação de respeito, admiração à conduta e cordialidade é igual com Óscar Tabárez. É um discurso repetido por membros de comissões técnicas que duelam e já duelaram com Tite ao longo destes cinco anos, com desdobramentos em campo e fora dele e a conclusão de que nenhum outro profissional se preocupa tanto com essa abertura de linhas de diálogo e trocas de experiências quanto o brasileiro.
Existe pouco significado prático deste comportamento. Tite não manifestou interesse, ao menos por enquanto, de organizar reivindicações dos treinadores de seleções sul-americanas ou criar movimentos. É algo informal e natural, segundo dizem pessoas próximas, que obedecem ao que o treinador tem chamado de sua "escala de valores".
Ele, inclusive, não quis sequer comentar os elogios públicos de Alfaro. Quando jornalistas insistiram no tema, respondeu: "Me orgulha sem ser orgulhoso e divido com todos vocês que estão aqui comigo."
Parte do apoio externo recebido ao longo desta Copa América, aliás, tem relação com as notícias que indicavam sua possível saída do cargo antes da competição. A postura questionadora de Tite sobre a disputa e também sobre os dirigentes da CBF e da Conmebol rendeu uma multa de quase R$ 25 mil, mas em contrapartida a defesa de companheiros de profissão como Gustavo Alfaro e a consolidação de uma ascendência para além das quatro linhas.
Sem jamais ter perdido um jogo oficial para seleções do continente em cinco anos de trabalho, Tite põe o Brasil em campo hoje, às 21h, contra o Chile, no estádio Nilton Santos, pelas quartas de final da Copa América.
FICHA TÉCNICA
BRASIL x CHILE
Competição: Copa América, quartas de final
Local: estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro-RJ
Data/hora: 2 de julho de 2021 (sexta-feira)
Árbitro: Patrício Loustau (Argentina)
Assistentes: Ezequiel Brailovsky e Gabriel Chade (ambos da Argentina)
VAR: Andrés Cunha (Uruguai)
Brasil: Ederson; Danilo, Marquinhos, Thiago Silva e Renan Lodi; Fred, Casemiro e Lucas Paquetá (Everton Ribeiro ou Roberto Firmino); Gabriel Jesus, Neymar e Richarlison. Técnico: Tite.
Chile: Bravo; Isla, Gary Medel, Sierralta e Mena; Erick Pulgar, Aránguiz e Arturo Vidal; Ben Brereton, Eduardo Vargas e Alexis Sánchez. Técnico: Martin Lasarte.
* Colaboraram Éder Traskini e Marinho Saldanha
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