Vale tudo? Evento de capoeira no Rio se espelha no UFC e prevê até nocaute
Considerada um Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, a capoeira é uma expressão cultural desportiva difundida para o mundo desde o final do século XVI e que possui cerca de nove milhões de praticantes no Brasil. Misturando arte marcial, dança e música, ela tem como uma de suas principais características estimular a união e a coletividade. No Rio de Janeiro, porém, um evento promete dar um ar de mais competitividade e combate ao jogo, e os idealizadores não escondem qual é a inspiração: o UFC e os demais eventos de MMA e jiu-jitsu, como o BJJ Stars.
O 'Volta do Mundo - Bambas' é uma competição inédita entre oito atletas selecionados pela organização, que se enfrentarão em quatro estilos de jogos e onde há possibilidade, inclusive, de nocautes. O evento está marcado para o dia 13 de agosto a partir das 18h. Quem for melhor avaliado pelos juízes a cada rodada ficará com o título.
"Organizar o Volta do Mundo tem sido um desafio, mas um desafio muito prazeroso. O evento tem um propósito, que é colocar a capoeira neste formato mais atual, mas respeitando sempre todas as tradições e elementos que a capoeiragem traz em seu conteúdo", declarou Saverio Scarpati, sócio e diretor executivo do projeto.
O evento terá transmissão ao vivo no canal da competição no YouTube e acontecerá no Espaço de Eventos Fire, no bairro da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a partir das 18h. Os oito atletas selecionados pela organização são: Moicano, Mauricio Japão, Mestre Ivan, Sem Coluna, Arthur Fiu, Tiziu, Felipe Cica e Erick Maia.
Principais diferenças: contato físico, pontuação e sem roda
Uma das primeiras dúvidas de quem se depara com esta novidade é saber quais serão as principais diferenças entre este campeonato e a capoeira tradicional.
A principal, sem dúvida, é a permissão do contato físico e um possível nocaute a depender do golpe. Outro ponto de diferença é a pontuação estipulada para o torneio, algo que não existe na capoeira mais popular. Além disso, não se presenciará a tradicional roda, com outros participantes cantando e batendo palmas. Na espécie de ringue que será montado, estarão somente os dois atletas que se enfrentarão.
"A diferença, primeiramente, é que não vai ter nenhuma roda de capoeira com vários participantes em cima. O estilo de competição tem uma pontuação engessada, onde na capoeira, em si, não tem. Será uma capoeira diferenciada, mais solta, com mais harmonia entre os atletas e mais objetividade", explicou o gestor-técnico do evento, Luiz Felipe Mendonça dos Santos, mais conhecido como "Felipe Tropeço".
Mesmo assim, a organização se preocupou em manter a tradição dos mestres e seus "toques", como são chamados os ritmos tocados pelos berimbaus e demais instrumentos de percussão. Foram escolhidos dois toques da Capoeira de Angola [o Angola e o São Bento Grande de Angola] e dois da Capoeira Regional [o Iúna e o São Bento Grande da Regional].
"Vamos manter toda a tradicionalidade na parte da orquestra da capoeira com os mestres na percussão. Estamos buscando quatro toques de dois estilos de capoeira que existem, que são dois toques da Capoeira de Angola e dois toques da Capoeira Regional. Então a gente também faz esse resgate dentro da competição", disse "Tropeço".
Cinturão será entregue por Thiago Marreta, do UFC
Neste confronto inédito, o campeão receberá de Thiago Marreta, lutador do UFC e simpatizante da capoeira, o cinturão do Volta do Mundo, condecoração que, por exemplo, também não existe na capoeira tradicional. A ideia é que outras edições aconteçam pelo Brasil, onde o atleta terá a oportunidade de defendê-lo, assim como ocorre no MMA e no boxe, principalmente. Além disso, o vencedor receberá uma premiação de R$ 5 mil.
"Queremos ver a capoeira recebendo todos os holofotes que ela merece, assim como nossos atletas. Hoje em dia é muito difícil para um atleta viver da capoeira, conseguir patrocínios e assim divulgar e crescer ainda mais o alcance do esporte. Infelizmente, muitos acabam desistindo ou indo buscar oportunidades em outras artes marciais que já possuem esse tipo de cenário. Mas com este projeto visamos remunerar nossos atletas e fomentar o mercado da capoeira, trazendo os olhares de investidores através de um evento e assim beneficiar a todos", declarou Marreta.
BJJ Star também é inspiração, mas premiação ainda é bem maior
Todo o glamour, organização e a capacidade de retorno financeiro do UFC serve como inspiração para os organizadores do "Volta do Mundo - Bambas", mas outro evento no qual eles se espelham e que é mais próximo da realidade atual é o "BJJ Stars", competição que também promove lutas casadas com os principais nomes do Brazilian Jiu-Jitsu.
Esta competição, no entanto, está cada vez mais estabilizada e badalada, o que faz com que suas premiações ainda estejam bem acima do Volta do Mundo - Bambas. A edição 8, realizada em maio, em São Paulo, por exemplo, pagou R$ 100 mil ao campeão do GP dos médios.
O formato é no estilo "mata-mata", com um chaveamento até o lutador chegar na final. Neste evento realizado na capital paulista os atletas lutaram sem quimono. Além da premiação gorda, o campeão também recebe um cinturão e tem que defendê-lo.
Atualmente, o BJJ Stars possui quatro categorias, ranking com pontuação entre os competidores, produtos licenciados, uma agenda anual e até mesmo um pacote pay-per-view por R$ 249,90 para quem quiser assistir a todos os eventos.
"É um modelo muito parecido [Volta do Mundo]...Isso não acontece só com o BJJ Stars, mas o BJJ Stars tomou uma proporção muito grande. E o como é o modelo? É selecionar algumas pessoas relevantes por algum motivo numa competição de alto nível. No caso do jiu-jitsu, é com estrelas, no caso da capoeira, é com os bambas. O formato do evento já é aplicado em outras modalidades, mas é inédito na capoeira", declarou Savério ao "Pan Podcast".
'Contribuição' para profissionalização da capoeira
Organizadores do evento, Savério e Tropeço têm evitado carregar para si o discurso de "profissionalização da capoeira". Em entrevistas, costumam dizer que querem dar uma "contribuição neste sentido".
"O evento tem um propósito. Seria muita audácia nossa dizer que queremos profissionalizar a capoeira, porque ela vem se profissionalizando e se desenvolvendo ao longo de décadas e décadas. E quem somos nós para profissionalizarmos a capoeira! Nós vamos é dar uma contribuição nessa direção, uma contribuição consistente, mas não é se creditar em profissionalizar a capoeira", disse Savério ao "Pan Podcast".
O Volta do Mundo também inovou nos ingressos. Quem quiser conferir ao vivo e in loco as lutas, basta pagar qualquer tipo de quantia no site do evento (voltadomundo.com) que receberá o link de acesso.
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