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Como os vizinhos da Rússia se distanciam da guerra para atrair turistas

Tallinn, capital da Estônia, tenta se afastar da guerra e busca nova estratégia para reaquecer turismo Imagem: picture alliance/dpa/picture alliance via Getty I

Rafael Tonon

Colaboração para Nossa, de Tallinn. Estônia

05/09/2022 04h00

Querido Putin, vamos logo para a parte em que você se mata em um bunker"

Na principal praça de Tallinn, a charmosa capital da Estônia, duas lousas trazem a mensagem, escrita em giz em dois idiomas: inglês e estoniano. Apoiadas sobre o chão na porta de entrada de um café, não causam nenhum desconforto aos clientes.

Pelo contrário. Desde que a invasão russa da Ucrânia começou em fevereiro, os países da região se levantaram em apoio ao vizinho, em clara rejeição à estratégia de Moscou, o que tentam deixar claro em cartazes, grafites e outras manifestações populares.

Em nações como Letônia, Lituânia, Estônia, Finlândia e Suécia, bandeiras ucranianas por todas as partes — de edifícios públicos às janelas de apartamentos privados — dão o tom. Na sede do governo da Letônia, em Riga, a flâmula azul e amarela está hasteada ao lado da bandeira local.

Na principal praça de Tallinn, a charmosa capital da Estônia, mensagens contra Putin Imagem: Rafael Tonon

Diminuição do turismo

Uma mistura de temor e repúdio com a invasão das tropas russas tomou conta do clima nestes países. Ali, onde a guerra é tão próxima, o estado geral não apenas impõe uma incerteza como acaba por criar uma tensa insegurança local, o que tem afastado também os turistas.

Turista observa caminhão pintado com as cores da bandeira ucraniana Imagem: Rafael Tonon

A agência de promoção do turismo estoniano, Visit Estonia, estima a diminuição de 50% no número de navios de cruzeiro atracados em Tallinn como efeito direto da guerra. "A guerra na Ucrânia aconteceu quando ainda estávamos nos recuperando do impacto dos últimos dois anos de pandemia", afirmou Kadri Gröön, uma das diretoras.

Mas ela aponta que os navios que antes tinham como destino também a cidade russa de São Petersburgo agora passam mais dias entre os bálticos, o que pode ser um fator positivo — já que muitos agora param também em outros portos, como Saaremaa, no caso estoniano.

Em Tallinn, na Estônia, embaixada sueca tem bandeira da Ucrânia em sua sacada Imagem: NurPhoto/NurPhoto via Getty Images

Novos mercados

A guerra na Ucrânia teve um impacto imediato nos números de reservas para a temporada de verão, a época que mais pessoas visitam a região, especialmente para o segmento de grupos — de viajantes da América do Norte, Ásia, mas também entre países vizinhos.

De acordo com estimativas fornecidas pelo setor de turismo da Letônia, as reservas foram canceladas em cerca de 60 a 70%. Para amenizar os efeitos da guerra, a estratégia de marketing do turismo letão foi revisada para redefinir mercados prioritários no momento, como Escandinávia e Europa Ocidental.

Neste ano, a maioria dos turistas que chegam ao país vem da Lituânia, Estônia, Suécia, Finlândia, Alemanha e outros países europeus. A perda de turistas russos e ucranianos também tem afetado muitos países vizinhos. Mas nem isso os fez mudar o seu posicionamento sobre a guerra.

Na Letônia, cancelamentos impactaram turismo local e exigiu nova estratégia de marketing Imagem: NurPhoto/NurPhoto via Getty Images

Turistas russos banidos

Em uma nova tentativa de se distanciar do governo russo, os países bálticos e a Polônia querem proibir a entrada de turistas russos em seus territórios. As discussões sobre o tema têm se acirrado nos últimos dias, com os países ameaçando uma ação unilateral se a União Europeia não concordar com a medida.

Nas recentes reuniões dos líderes europeus em Praga, o ministro das Relações Exteriores tcheco, Jan Lipavsky, sugeriu que medidas para limitar o tráfego de turistas da Rússia poderiam ser incluídas em um novo pacote de sanções.

Em entrevista à imprensa, ele disse que é preciso "olhar para o que a Rússia está fazendo na Ucrânia ao mesmo tempo que os turistas russos estão vindo para nossos resorts em spas para desfrutar de nossa esplêndida Europa".

Outros líderes europeus vêem com cautela a decisão de impedir a visita de turistas russos, o que poderia causar uma crise diplomática ainda maior. Nos países Bálticos, porém, esta não é uma preocupação da população.

Em Milão, na Itália, cartazes criticam ações de Putin contra a Ucrânia Imagem: Pier Marco Tacca/Getty Images

Ligação muito próxima

Nas ruas das cidades, cartazes e dizeres nos muros dão conta de tratar o líder Vladimir Putin como um inimigo da região. Em Tallinn, muitos deles também são escritos em russo, onde 50% da população fala o idioma do país vizinho.

Claro que há aqueles que simpatizam com o que está acontecendo, principalmente os mais velhos. Mas em geral, a população da cidade tem insurgido contra as ações militares na Ucrânia. Gregor Taul, crítico e curador de artes e arquitetura

A presença russa — na história, na arquitetura, em algumas estátuas que ainda não caíram — segue latente, ainda que muitos queiram ignorá-la. Nos cartazes da cidade, nas entradas de algumas igrejas, o alfabeto cirílico também prova que as relações são mais intrínsecas do que se pode supor.

História presente

A Estônia, por exemplo, só se tornou independente em 1920, quando a Rússia soviética reconheceu a autonomia do país — algo que não durou muito, até que a União Soviética incorporou forçosamente a Estônia, tornando-a uma República Socialista em 1940.

Foi só 50 anos depois que o país conseguiu sua independência plena. "Por muito tempo, nosso acesso ao mar foi fechado. Ninguém podia ir à praia. Ver os cruzeiros chegando e as pessoas aproveitando o pôr do sol é algo novo na nossa memória", ele diz.

Em julho, manifestantes protestaram contra Rússia na embaixada do país na Estônia Imagem: NurPhoto/NurPhoto via Getty Images

Na Letônia e na Lituânia, foram necessárias muitas mortes para que se conseguisse uma emancipação. "Ninguém tem saudade daqueles tempos, só quem tem memória muito curta", afirma Mindaugas Jokubelis, professor e guia em Klaipeda, cidade da costa lituana.

Seu país, libertado do jugo nazista em 1948, cedo se viu recolonizada pela URSS. Para ele, é preciso mostrar que a Lituânia — e outros países da região — estão "do lado certo da história", como diz.

"Quando nos visitam, as pessoas podem ver que somos mais do que muitos dos livros nos mostram. Temos um país lindo, culturalmente rico, aberto para todos os turistas", ele conclui. Bem, nem todos.

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