Melancolia e nó na garganta: 'Vitória' expõe realidade surreal do Brasil
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Em tempos de crise das salas, concorrência com o mundo multitelas, pouquíssimos atores e atrizes são capazes de despertar só por estarem em um filme a vontade do espectador de conferir o trabalho no cinema. Isso vale tanto para o circuito internacional quanto para o brasileiro. Fernanda Montenegro é uma dessas atrizes. Há alguns anos, quando "Vitória" começou a ser rodado, a curiosidade sobre o filme começou forte. Isso se deve, claro, em parte, por contar uma história real e que revela as tantas contradições do Brasil, mas foi a escolha de Dona Fernanda para viver Joana Zeferino da Paz que deixou o público ansioso.
Ansiedade totalmente justificada. Haja vista que desde 2007, quando estrelou "Casa de Areia", que o público não a via como protagonista no cinema. Em tempo, neste filme, atuou ao lado de Fernanda Torres, e também foi dirigida por Andrucha Waddington, que assumiu a direção de "Vitória" após a morte repentina do amigo e sócio na Conspiração Filmes, Breno Silveira.
Breno sempre foi um diretor do cinema humanista, com filmes em que o diretor nunca brilhou mais que os personagens em suas histórias muito humanas, como um pai que luta pelo futuro dos filhos em "Dois Filhos de Francisco", a relação também de pai e filho em "Gonzaga: De Pai Pra Filho" e a relação entre um caminhoneiro e um menino para quem dá carona em "À Beira do Caminho".
Era de se imaginar que em "Vitória" não seria diferente. O olhar humanista do filme, que parece simples, mas é certeiro ao narrar com simplicidade, mas engenhosidade a surreal história de Dona Nina, começa no roteiro. Inspirado no livro "Dona Vitória Joana da Paz", do jornalista Fábio Gusmão, o roteiro foi escrito por Paula Fiúza, com colaboração de Breno Silveira, e conta a história pelo olhar da personagem. É o choque e o horror que ela experimenta ao se dar conta que a janela dela que um dia deu vista para a floresta hoje tenha como cenário uma boca de fumo que é só a porta de entrada não para a comunidade que se espalha pelo morro, mas também para uma rede de crimes e corrupção tão absurda quanto banal em uma terra em constante transe.

Na trama do filme, que se passa em 2005, Joana Zeferino da Paz se chama Dona Nina, uma massoterapeuta que trabalhou décadas como doméstica e lutou muito para comprar seu apartamento em Copacabana, testemunha de sua janela diversos crimes cometidos pelos traficantes na entrada da comunidade Ladeira dos Tabajaras. Ela tenta fazer uma denúncia (na vida real, foram várias), mas é ignorada pela polícia. Ela, então, compra uma câmera à prestação e passa a registrar a movimentação do tráfico, o aliciamento de menores e até crimes mais graves.
Na verdade, tudo que Nina queria era ter uma vida tranquila, atender seus clientes, receber o menino Marcinho (Thawan Lucas), morador da comunidade, sempre com um sorriso e um pedaço de bolo, papear com sua vizinha Bibiana (Linn da Quebrada) e ver o mar e pôr do sol nas horas livres. No entanto, sua terceira idade, que seria finalmente seu momento de paz, é invadida pela realidade surreal do Brasil. Quando mais que o barulho, mas sim uma bala, entra pela janela, ela tem a primeira grande virada na trama e decide comprar a câmera e dar finalmente as provas que a polícia exige para que alguma ação comece a ser tomada.

Mas de nada adianta. É novamente ignorada. A violência aumenta, Marcinho e Bibiana sofrem consequências diretas e graves. Indignada, Nina decide, então, entregar as fitas a uma delegada, Laura (Laila Garin), novamente mal é escutada. Só que o jornalista Flávio Godoy (Alan Rocha) está no balcão do lado e tem acesso às fitas.
É engenhoso no roteiro retratar Alan/Flávio assistindo, pasmo, às fitas que Dona Nina gravou. A perplexidade e revolta que o jornalista sente jamais deveriam se tornar indiferença ou costume. Infelizmente, em um Brasil em que a violência e as questões sociais só se agravaram nos últimos tempos, imagens como a que Nina gravou passaram a ser quase banais. Mas Flavio não permite, mesmo cobrindo crimes todos os dias, que a indiferença tome conta e decide ajudar Nina.
"Vitória" poderia ser um thriller de caça aos criminosos, um filme denúncia, um filme político e até um melodrama. No entanto, é, como o nome bem diz, um filme sobre a personagem e seu caráter obstinado, que pode parecer contraditório para uma senhora, e suas relações humanas. Resiliente, Nina não é uma vítima, mas sim uma agente da transformação.

Neste sentido, a escolha de Fernanda Montenegro é o maior acerto do filme, que tem direção também humanista, precisa e nada ingênua de Andrucha. Se o roteiro centra nela o fio condutor da história, a direção também centra nas expressões, corporais e faciais, na presença majestosa e singela da atriz em cada sequência. É preciso ressaltar que a direção de Andrucha, assim como a direção de arte de Claudio Amaral Peixoto e o figurino de Ana Avelar e Marina Franco, reconstroem a época, o apartamento e o clima de um Rio pré-UPPs, milícias não tinham a força que têm hoje e um outro futuro era possível. Para que Fernanda brilhe em cada cena, seguida sempre com atenção pela câmera, que sabe que a atriz é magnética, o universo criado é o de um Rio muito real e palpável.
É genuíno o cansaço de Nina/ Fernanda diante de uma realidade que ela vê de sua janela, mas que não sabe, como cidadã, o que fazer para mudar. Quantos, em sua situação, não apenas desistem, mudam-se, olham para o outro lado. Ela, coerente com quem é, é aguerrida, coloca-se desde a relação dela com o menino Thawan e sua defesa em situações de injustiça, até com os chefes da polícia e o próprio Flávio.

A relação entre Fernanda e Alan Rocha é tão genuína quanto a dela com Thawan. E cada cena entre eles é um deleite. Mesmo que uma conversa ou outra possa parecer muito explicativa, é delicioso ver Dona Fernanda contar, como quem passou uma vida nos palcos, seu lar maior, uma fábula. É nos pequenos gestos, respiros, modulações de voz que a atriz constrói seu encantamento pelo mundo e seu horror e revolta que modulam também a crescente tensão do filme.
Nina se torna Vitória e triunfa em um caso que se tornou famoso por ser tão esdrúxulo quanto real. O esquema de crimes, tráfico de drogas e corrupção, que envolvia policiais, foi amplamente noticiado, Vitória viveu até 2023, quando faleceu de causas naturais, sem ter sua identidade revelada, pois entrou para o serviço de proteção a testemunhas. No entanto, não é em clima de festa nem sob o "tema da vitória" que "Vitória", o filme, nos entrega essa história. Há melancolia e um nó na garganta ao seguir, com o olhar único de Fernanda, as ruas do Rio que, como qualquer outra grande cidade brasileira, mas talvez de forma mais aguda, sofre com essa realidade em que se tapa o sol com a peneira, a janela com uma persiana que nunca se abre. Um país que trata as raízes da violência surreal à que nos acostumamos com cinismo e superficialidade. O olhar de Nina se torna uma arma e nos faz pensar nas tantas pessoas que teimam em acreditar, lutar e até enfrentar a ordem vigente.
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