'Dei carona para Clint Eastwood': Isabela Boscov expõe momentos marcantes
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Formada em rádio e TV pela USP, Isabela Boscov garante que nem todo crítico de cinema é um cineasta frustrado. "Nunca tive vontade de ser diretora ou roteirista. Eu gostava mais ou menos da área de montagem, o que significa que minha vocação já era editorial", conta ela que, desde 1994, se dedica à cobertura de cinema. Isabela comandou a revista Set e, por 16 anos, foi crítica de cinema da revista Veja, onde se consagrou como um dos nomes mais respeitados e influentes dessa área de atuação.
Apesar de ter se desligado da publicação em 2015, Isabela seguiu colaborando de forma não exclusiva com a Veja e, em paralelo, criou um canal no YouTube em que postava ocasionalmente vídeos com resenhas de lançamentos de filmes. O que era um hobby passou a ser negócio a partir de 2019 e, no fim de 2021, o canal de Isabela Boscov ganhou popularidade.
O jeito contundente com que fala somado as suas opiniões incisivas e embasadas sobre filmes e séries fizeram com que Isabela virasse meme e se tornasse uma figura cultuada na internet e na cultura pop brasileira. Ela se tornou um caso raro de criadora de conteúdo que furou a bolha do nicho que atua sem apelar para artifícios que costumam funcionar para quem persegue a viralização, como humor ou polêmica, além de ter mantido a notoriedade e a relevância após explosão inicial nas redes sociais.
Na temporada de premiações cinematográficas, o nome de Isabela Boscov fica ainda mais em evidência na internet, e foi na correria pré-Oscar que ela atendeu a coluna para uma entrevista.
Você veio de uma carreira no jornalismo impresso, em que repórteres e editores não costumavam aparecer, e migrou para o YouTube, onde se tornou uma espécie de celebridade. Como foi esse processo para você?
Foi tudo muito gradual. Eu comecei o canal em 2015, mas só fui investir de verdade em 2019, quando passei a publicar vídeos com mais assiduidade. O canal estourou em 2021 por conta dos memes. Essa repercussão foi totalmente inesperada. Se me dissessem que eu iria ganhar notoriedade por causa desse tipo de brincadeira, eu jamais acreditaria. A partir do momento que o número de inscritos do canal começou a aumentar, as propostas de publicidade surgiram. Para mim, que nunca tive que lidar com questões comerciais nos tempos de redação, foi chocante ter que trabalhar dos dois lados do balcão (editorial e comercial). Eu faço publicidade para marca de cosméticos, para marca de roupas e outros segmentos, mas eu mantenho minha independência editorial. É uma questão de honestidade intelectual. Nunca me sentiria confortável falando de filme se eu tivesse comprometido o conteúdo editorial.
É bem complicado trabalhar com a própria imagem, mas ou eu faço propaganda ou eu não ganho nada. No Brasil, a remuneração do YouTube é baixa. Com meus números no YouTube (o canal de Isabela possui mais de 973 mil inscritos e vídeos que frequentemente ultrapassam a marca de 500 mil visualizações), eu ganharia 5 vezes mais se estivesse nos Estados Unidos.
Quando você se deu conta que estava famosa?
Como os memes estouraram no fim de 2021 e ainda era pandemia, demorou para eu sentir esse impacto. Quando voltei a frequentar cabines (sessões de filmes organizadas para a imprensa), notei que muita gente mais jovem vinha falar comigo, pedindo que eu fosse falar nas faculdades. Acho genial que eu consiga me comunicar com a geração Z considerando a distância sociológica entre a minha geração e a deles. Mas confesso que não consigo muito entender o que eles veem de tão atrativo no meu conteúdo.
Tirando esse pessoal que está ligado com cinema de alguma maneira, acontece de ser reconhecida por gente de diferentes segmentos, como o caixa da padaria e o funcionário da alfândega do aeroporto. Até em uma aldeia no meio de Portugal já me reconheceram. No meio do nada, veio uma moça portuguesa me cumprimentar. É muito estranho [ser reconhecida], mas 99% das abordagens são carinhosas e lisonjeiras.
Fico muito feliz quando vejo pessoas que não estão ligadas ao cinema dizerem que adoram ver meus vídeos porque descobrem novos filmes. Minha vontade sempre foi alargar o público do cinema e não depender que o público do canal tenha repertório para consumir os vídeos. Eu acredito que qualquer pessoa pode apreciar e discutir um filme.

Existem outros produtores de conteúdo que falam sobre cinema, mas nenhum alcançou sua repercussão e se tornou uma figura da cultura pop a ponto de virar figurinha de WhatsApp. Como você explica seu sucesso?
É muito difícil olhar de maneira clínica para si mesmo. Eu não sei quais elementos que justificam meu sucesso. Em parte, acho que contribui o jeito mais incisivo e contundente de falar, uma coisa que vem do hábito de escrever. Sem querer, elaboro frases que as pessoas acham interessantes. Essa sensação de autenticidade, que espero que seja verdadeira, que as pessoas têm a meu respeito também pode ser um fator.
E tem uma coisa curiosa que é a seguinte: uma vez, fui falar numa classe enorme numa faculdade e perguntei se eles me viam como uma figura materna e a resposta foi sim (risos). Eu sou figura materna, mas sem complicações de uma mãe. Eu não julgo, nem tenho problema como as pessoas vivem. Compreendo e apoio todo mundo se você não está prejudicando ninguém. Acho horrível legislar sobre a maneira como as pessoas vivem suas vidas ou sobre como apreciar filmes. Tem muita gente que não encontra a compreensão entre seus pares e na sua família e projetam isso na minha figura.
De todos os memes que fizeram com você, tem algum que seja preferido?
Eu adoro demais um meme que fizeram para explicar reformas de casa a partir de trechos de minhas críticas. Quando mais fora do contexto, mais divertido fica. Eu me diverti muito com um que usavam minhas frases para descrever as linhas do metrô.
Nesses 30 anos cobrindo cinema, quais histórias mais marcaram você?
Uma coisa que era incrível quando eu comecei na VEJA em 1999, era a duração das entrevistas: todas tinham, pelo menos, uma hora. Hoje em dia, você tem que construir um relacionamento e tirar uma informação interessante em 4 minutos. Naquela fase áurea, fui entrevistar George Lucas no rancho dele e foram 3 horas e tanto de conversa. Por causa da longa duração da entrevista, a certa altura, as coisas ficam mais pessoais, e você tem que saber proteger o entrevistado se ele deixa escapar algo íntimo. Eu, pessoalmente, acho que não interessa a ninguém a vida íntima de um diretor ou de um ator, então, não vou me aproveitar de uma declaração mais pessoal.

Muitas vezes, aconteceu de a pessoa chorar durante a entrevista. Eu devo ter cara de confessionário (risos). Essa relação que a gente estabelece com os artistas durante as entrevistas é superinteressante porque, ao mesmo tempo, que você não pode dizer que conhece a pessoa, você consegue estabelecer um relacionamento num espaço tão curto de tempo que a pessoa se sente confortável de fazer uma confissão íntima. Essa dinâmica me fascina.
Mas nem todo mundo era chegado a conversas longas. Teve uma entrevista com Oliver Stone por telefone que eu falei boa tarde e ele respondeu: "Quer saber? Não estou com o menor saco! Tchau" (risos).
Uma das experiências mais legais que tive foi com Clint Eastwood. Foi uma negociação complicada para ele topar falar. Marcamos em um restaurante em Palm Springs e o combinado era conversar por uma hora. Ficamos falando durante mais de três horas. Eu lembro que era inverno e quando saímos do restaurante, estava escuro e super frio. Ele tinha ido a pé até o restaurante. Eu conversei com o rapaz do estúdio que acompanhou a entrevista e disse: "Não podemos deixa-lo ir embora a pé." Ele concordou e demos uma carona para Clint Eastwood.
Com tanta experiência, você ainda fica nervosa quando se vê diante de astros de cinema para uma entrevista?
Tem pessoas que você vai com uma certa trepidação por causa da inteligência tão evidente que ela tem. Então, você vai perder a pessoa se você for por um caminho de obviedades durante a entrevista. Esse foi o caso do ator Gary Oldman. Eu estava bem insegura antes da entrevista, porque ele é tão evidentemente inteligente. Mas o papo foi sensacional. Minha admiração por ele ficou ainda mais gigantesca.
Nas redes sociais dizem que você tem uma implicância com Angelina Jolie...
É uma narrativa criada! Eu não tenho nenhum sentimento pessoal pela Angelina Jolie. Não sou amiga, nem desafeta, nem nada dela. Eu critiquei e elogiei as atuações da Angelina como fiz com outros atores. Talvez eu tenha me divertido mais falando dela e, por isso, acham que eu tenho implicância. Para ter uma rixa, a outra pessoa precisa saber que você existe, e eu garanto que Angelina Jolie não sabe da minha existência (risos).
No seu canal, a maioria das críticas são sobre filmes "sérios" ou que podem ser considerados cults. Você tem algum guilty pleasure cinematográfico?
Tem um filme que eu sei que é completamente água com açúcar chamado "Um Sonho Distante", com Nicole Kidman e Tom Cruise. O filme é uma baba, mas eu me divirto demais sem culpa nenhuma (risos). E tem séries espanholas muito ruins, como "Vis a Vis", que me divirto vendo.
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