Casas separadas, casamento, sexualidade: a relação aberta de Mauro Sousa
O público tomou conhecimento do relacionamento entre Mauro Sousa e Rafael Piccin em 2019, quando o cartunista Mauricio de Sousa, 88, tirou o filho do "armário" por meio de uma publicação despretensiosa no Instagram. Os dois, que encontraram na valorização da individualidade o caminho para a construção do próprio relacionamento, acabam de completar 16 anos juntos.
"A gente mora em casa separada, não usa aliança, nunca fez uma cerimônia, não tem conta conjunta. A gente não pretende ter filhos. E que são características muito diferentes do que a gente vê, assim, de casais. E por isso que quando a gente fala sobre isso sempre fica uma coisa mais assim: 'Nossa, que esquisito, que estranho.' Só que é a nossa maneira de se relacionar", explica Mauro, em entrevista exclusiva a Splash, gravada em Gramado (RS).
Individualidade é fundamental para o casal. "É assim que funciona para a gente, porque eu acho que uma palavra muito importante na nossa relação é individualidade. Eu preciso sentir que eu existo por mim, não eu com o Rafa. Então eu preciso ter o meu espaço, o meu momento, o meu tempo, e ele também. E isso é uma coisa que eu prezo muito na nossa relação."

Relacionamento aberto. "Dá certo para a gente. A gente teve muito DR. Muita discussão acerca disso. Até porque a gente também tem um relacionamento aberto. Então todos esses assuntos exigiram muita conversa. O diálogo é fundamental. E a gente conversa absolutamente sobre tudo. A gente não pode ter tabu entre a gente. A gente tem que conversar sobre tudo."
Julgamentos. "A gente foi abrindo a nossa cabeça. Entendendo quais eram as minhas vontades. Quais eram as vontades dele. E quais eram as nossas vontades juntos. Como um casal. Mas isso faz muito tempo. A gente está há 16 anos. A gente começou a falar sobre isso com três anos, mais ou menos. E a gente ouve muito julgamento: 'Ah, porque é isso. Porque é aquilo. Porque então vocês são pervertidos. Porque então vocês não são um casal.' A gente não está nem aí com o que estão dizendo."
Orientação sexual
Mauro e Rafael enfrentaram processos distintos quando decidiram falar sobre orientação sexual com a família. Mauro contou com o apoio da mãe, a desenhista Alice Takeda, que tomou a iniciativa de conversar sobre o assunto. O acolhimento da família foi fundamental para trazer de volta o sorriso para o rosto do filho de Mauricio de Sousa.
Foi a minha mãe ter ido conversar comigo. Sem precisar de muitas palavras. Ela sabia o que eu precisava. Que eu precisava de um abraço. Que eu precisava de apoio. E ela me deu o que eu precisava. Por isso que esse foi o dia mais importante da minha vida. Porque acho que era o momento que eu mais precisava dela. E ela estava lá para mim. E eu não precisei falar nada. É um poder. É uma mágica de mãe. Que a mãe, ela sente. Minha mãe sentiu. Ela sabia que eu precisava dela. Mauro Sousa

Mauro divide a vida entre antes e depois da conversa com a mãe. "Ela veio e me acolheu. Existe o antes e o depois desse dia. Porque foi depois disso que eu realmente comecei a gostar mais de mim. Que eu comecei a me sentir livre para ser o que eu quisesse ser. E não tem nada mais importante do que isso. De realmente me sentir bem comigo mesmo. E isso foi graças a minha mãe."
Rafael Piccin viveu um processo um pouco diferente do marido. "Acho que foi um processo mais padrão para uma família que tem uma pessoa LGBT. Foi o processo de todo mundo sair do armário junto. E vergonha? Por que a primeira coisa que a gente tem é a questão do orgulho? Justamente porque durante muito tempo foi colocado para as famílias que era uma vergonha ter alguém LGBT dentro da família. E acho que foi esse o primeiro sentimento dos meus pais."
Apesar disso, Piccin também foi acolhido pelos familiares. "Não foi fácil, mas foi muito libertador esse processo. Você não ser quem você é para um pai, para uma mãe é horrível, porque está faltando um pedaço seu ali que eles não conhecem. E que não tem nenhum problema. Foi um processo de muita dúvida. De muitas questões que eu tive que ter muita força naquele momento para trazer eles para perto de mim."
Rafael acredita que o relacionamento de Mauro com a família ajudou os pais no processo de aceitação. "Acho que ajudou muito. Porque ter um pai como o dele, que tem uma representatividade muito forte na cultura brasileira, na educação, acolhendo um filho. O cara está acolhendo o meu filho. Tem alguma coisa errada. Eu preciso no mínimo parar de reproduzir o que até hoje eu conhecia como certo ou errado. E rever esse processo. Acho que ajudou também os meus pais se sentirem seguros."
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