Cristina Fibe

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Opinião

Quantas acusações são necessárias até que uma mulher seja ouvida?

As acusações contra o ex-ministro dos Direitos Humanos Silvio Almeida deixaram o Brasil em choque na semana passada. Mas não o governo federal. Nos corredores da Esplanada e do Planalto, já se sabia das importunações sexuais denunciadas pela ministra Anielle Franco, da Igualdade Racial.

E, se é um avanço na luta pelos direitos das mulheres afastar o acusado do cargo, é também preciso reconhecer que isso só foi feito por pressão da imprensa e da opinião pública. Não fosse o nome de Anielle ter sido divulgado — à revelia dela — pelo portal "Metrópoles", ela seguiria silenciada e sem reparação.

As reações às notícias mostram que o seu silêncio tinha razão de ser: antes de ser afastado, Silvio Almeida recebeu inúmeras manifestações de apoio incondicional, enquanto ela era atacada e colocada em dúvida.

Entre a ação do governo e a abertura das investigações, Anielle teve até a competência para o cargo questionada. Quer dizer, além de sofrer uma violência, a ministra precisaria reagir segundo preceitos imaginados por observadores externos, que nada sabem sobre o trauma que passou e quanto lhe custa lidar com ele.

Conforme vieram à tona acusações feitas por outras mulheres, o valor da palavra de Anielle foi subindo, e os ataques, diminuindo. Mas quantas são necessárias para que a fala de uma mulher seja considerada?

Num crime que quase sempre acontece às escondidas e sem deixar vestígios, é preciso ter cuidado para que um discurso baseado em ideias distorcidas de presunção da inocência não reforce um sistema que subjuga as mulheres e perpetua as violências sexuais e institucionais.

No devido processo legal que o advogado, professor e filósofo Silvio Almeida enfrentará a partir de agora, é obrigatório o julgamento com perspectiva de gênero, ou seja, que não reproduza as violências de uma sociedade misógina e dê especial valor à palavra da mulher.

Evocar "materialidade", insinuando que a palavra da vítima é insuficiente, divulgar mensagens que expõem Anielle ou se dizer alvo de calúnias e complôs só reforçam o uso da cartilha dos acusados de violência sexual. Negar, atacar e inverter os papéis de vítima e agressor. Já vimos esse filme.

Mas a culpa não é de Anielle, e não foi Anielle quem causou uma crise no governo. O responsável por essa crise é Silvio Almeida — com a ajuda de quem, no alto escalão, soube das denúncias antes. E nada fez.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

24 comentários

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Lourival Andrade Nascimento

Senhora, QUALQUER tipo de argumento para justificar que um homem queira intimidades com uma mulher valendo-se do poder do cargo que ocupa é gravíssimo. Também é GRAVÍSSIMO que desde Janeiro o Governo Lula sabia o que o Ministro Sílvio fazia, mas ficou inerte, cúmplice, concordante com essa coisa abominável. Não fosse a atuação da Me Too, provavelmente até hoje os escândalo estaria abafado, sem uma palavrinha sequer das Vestais de Shopping do " Mexeu Com Uma, Mexeu Com Todas ", o que as torna, em Português claro, cúmplices! Só depois, bem depois de saber do escândalo calhorda o Governo Lula ensaiou uma reação que por tardia, uma vez que ele sabia de tudo desde Janeiro, é tão culpado quanto o Sílvio.   

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Sergio Nargy Lopretto

Depende. Se a acusação for contra alguém de direita, uma só, se for contra alguém de esquerda, talvez infinitas não sejam ainda suficientes.

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Hélio Bella

Com vistas única e exclusivamente procurando ganhar votos, like”s e posição política esse pessoal compete para ver quem é o rei da dicotomia = dividem tudo, homem, mulher, negro, branco, todas outras cores, e ainda mais de 30 identidades de gênero, entretanto, porque o negro e a mulher acham que possuem primazia sobre todos outros, devem ganhar, ganhar, ganhar, e ganhar frequentes presentinhos sem o conhecimento das palavras eficiência, produtividade e eficácia em suas ações profissionais?! Procurem e vão encontrar adversidades em todo tipo de raça, cor, sexo e gênero, pois de conversa mole também se ganha a vida e esse papo de discriminação ao negro, abuso e proteção da mulher passando-se por minoria que diga-se de passagem são maioria, já em che u  o  sa co. ! Em alguns casos manipulação de massa, atitudes de misandria, ginocentrismo e outros adjetivos lamentáveis que definem a atual militância feminista brasileira !

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