Mãe tem bebê trocado na maternidade e decide ficar com as duas crianças
Em 2004, Rita Ribeiro da Silva, 41, deu à luz Vitor, mas o bebê foi trocado na maternidade e a ex-catadora de lixo reciclável cuidou de Giuliano por sete meses até o hospital confirmar o erro. “Eu desconfiava que os bebês tinham sido trocados, meu marido achou que eu tivesse o traído e me deixou”. Nesse depoimento, Rita conta as lutas que passou, como ela recuperou o filho biológico e a decisão de adotar Giuliano:
“Eu tive o Vitor no Hospital Municipal de Votorantim, no interior de São Paulo, no dia 19 de julho de 2004. O médico me mostrou ele rapidamente e eu vi que ele era magro e moreno.
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Eu fui para o quarto e a enfermeira trouxe o Giuliano como sendo meu filho e o colocou no berço. Achei estranho porque ele era branco e gordinho e não parecia a criança que eu tinha visto na sala do parto.
Ele começou a chorar e uma moça se ofereceu para pegá-lo. Ela olhou o nome da mãe no berço e me chamou de Luciana. Eu disse que aquele não era o meu nome. Eu procurei a enfermeira e ela falou que iria verificar o que tinha acontecido. Ela voltou e disse que, por engano, os berços tinham sido trocados, mas que eu podia ficar tranquila que aquele era meu filho. Ela confirmou que o nome na pulseira do Giuliano era Rita.
Naquele mesmo dia, encontrei a Luciana no corredor. Ela comentou a confusão dos berços e me disse que tinha certeza que o bebê que estava com ela era dela, porque ele tinha uma mancha na perna igual a do marido.
Eu fiquei angustiada porque eu olhava o Giuliano e achava ele parecido com a Luciana. Algo me dizia que ele não era o meu filho biológico e que os bebês tinham sido trocados na maternidade. Desabafei com a minha mãe sobre isso, mas ela achou que eu estava com depressão pós-parto.
“Meu marido achou que eu tivesse o traído e me deixou”
Meu marido, o Claudio, ficou surpreso quando viu que o menino era branco, porque nós somos morenos. Ele suspeitou que não fosse o pai, achou que eu tivesse o traído e que estava inventando aquela história para me livrar da culpa. Ele falou que ia ficar com a mãe dele até que eu provasse minha inocência. Ele me largou em casa com o Giuliano e com as nossas outras duas filhas. Me senti muito humilhada.
Depois que meu marido foi embora, eu tive que me virar. Eu estava desempregada e comecei a fazer faxina e saía todos os dias pelas ruas para recolher lixo reciclável. Juntava tudo o que conseguia por uns 20 dias e vendia por R$ 40, R$ 45. Com esse dinheiro, eu comprava fralda, leite e alguns mantimentos.
Nesse tempo, uma funcionária do hospital me procurou porque a história das trocas dos berços havia se espalhado e eles queriam esclarecer o caso. Fizemos dois testes de DNA e só ficamos sabendo do resultado quatro meses depois, quando as crianças tinham sete meses.
“Quando vi o Vitor, sabia que ele era meu filho biológico”
Coração de mãe não mente. Assim que eu vi o Vitor, no dia que o diretor do hospital nos chamou para falar o resultado, eu já sabia que ele era meu filho biológico. Chorei bastante. Senti medo, tristeza, alegria e felicidade. Fiquei horrorizada quando vi que ele estava desnutrido e tinha bernes pelo corpo.
O diretor confirmou o erro e disse que tínhamos de destrocar os bebês imediatamente. Eu disse que precisava de um tempo, eu amamentava o Giuliano e não podia tirá-lo do peito de uma hora para outra. Eu queria levar o Vitor comigo, mas também não queria deixar o Giuliano. Fui um pouco egoísta, mas estava preocupada que ele não fosse bem tratado.
Nosso caso foi parar na Justiça. Fizemos um acordo com o juiz e a Luciana morou na minha casa com o Vitor por 30 dias. O combinado era que ela cuidasse do Giuliano e eu do Vitor, mas a experiência não deu certo, porque ela não cuidou do menino.
Depois disso, a Luciana se mudou para uma casa próxima a minha. Ela levou o filho dela e eu fiquei com o meu. Nossa adaptação foi ótima, mas o mesmo não aconteceu com eles. Ela me propôs de destrocarmos os bebês novamente. Eu não aceitei. Ela disse que se eu não devolvesse o Vitor, eu podia ficar com os dois porque ela não queria ficar com o Giuliano. Ela alegou que ele não gostava dela e que ela estava cansada.
“Decidi adotar o Giuliano porque o amava como meu filho de coração”
Nós levamos a situação ao juiz e ele me perguntou se eu queria ficar o Giuliano. Eu disse que sim porque já o amava como meu filho de coração. Ele estava com dez meses. Os pais passaram a guarda definitiva dele para mim em 2005. Meu marido voltou para casa, três anos depois tivemos uma outra menina. Em 2010, ele morreu afogado num acidente na pescaria.
Hoje eu e meus cinco filhos sobrevivemos com uma pensão por morte do meu marido no valor R$ 1.750 e com a pensão que o meu advogado, o dr. José Roberto Galvão Certo, conseguiu para o Giuliano de um salário mínimo até ele completar 18 anos. Também ganhei uma ação de indenização por danos morais, que com juros e correção, deve chegar a R$ 200 mil.
Quando eu receber o dinheiro, quero comprar uma casa para deixar para os meus filhos. Nós moramos num barraco, numa área invadida e a qualquer momento podemos ser despejados. A relação do Vitor e do Giuliano é de irmãos. Meus cinco filhos são tudo para mim, eles dão sentido na minha vida e me completam como mãe”.
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