'Dating burnout': desgaste emocional com apps afetaria mais mulheres negras

"Dating burnout", o desgaste mental e emocional provocado pelo uso de aplicativos de relacionamento para encontrar um amor, pode afetar mais a mulheres negras, apontou o coach de namoro e podcaster Anwar White, à revista americana Glamour.

O que aconteceu

Mulheres negras seriam prejudicadas pelo algoritmo dos aplicativos. Segundo Anwar White, o que muitas negras não sabem é que aquilo que "frequentemente parece ser pessoal é estrutural". Ou seja, a dificuldade de namorar quando as oportunidades de encontros são monopolizadas por apps é maior para elas do que para mulheres brancas.

Em plataformas de relacionamento, mulheres brancas atingem índices de "matches" próximos a 60%, enquanto mulheres negras veem índice mais próximos a 40%. Mulheres brancas convertem "matches" em conversas cerca de 30% a 36% das vezes, enquanto para mulheres negras este número cai para 18%. Anwar White estimou as experiências de suas clientes à Glamour americana.

À publicação, o aplicativo Hinge não negou as diferenças encontradas por White. Mas afirmou que seu algoritmo é "desenhado para ajudar quem namora a se encontrar". Além disso, a empresa ressaltou que intencionalmente "torna mais fácil para usuários se expressarem e se conectarem com as pessoas em quem estão interessados". No entanto, não foi discriminado quais mecanismos seriam estes. "Queremos que todos, inclusive mulheres negras, se sintam vistas, respeitadas e empoderadas a encontrar conexões significativas", prometeu o app, garantindo que segue ouvindo à sua comunidade para melhorar a experiência.

White diz que passou a recomendar às clientes que mudassem sua raça para "branca" no Hinge. Segundo ele, isso poderia aumentar o sucesso em sete vezes. Sua teoria é de que o app liberaria "matches de maior qualidade com diretores, empresários, engenheiros e contadores". A editora Ruhama Wolle afirmou que amigas testaram e constataram que obtiveram mais matches mudando sua raça na plataforma.

No entanto, alternativa pode aprofundar desigualdades e expor mulheres às incertezas de como serão tratadas por um pretendente não-negro. Uma pesquisa da psicóloga social Lia Vainer Schucman (USP) apontou em 2017 que, entre relacionamentos interraciais no Brasil, o modelo do homem negro com a mulher branca é mais predominante do que o da mulher negra com um parceiro branco. Logo, elas já saem na desvantagem na preferência de homens brancos e negros, enquanto os homens negros namoram mais frequentemente com outras negras e também com brancas.

Racismo estrutural e questões sociais ainda diminuem oportunidades para mulheres negras. É mais difícil para uma mulher negra fazer um "match" com um homem negro, de acordo com Wolle, porque o número de pretendentes da mesma raça disponíveis é reduzido pela maior mortalidade, nível de encarceramento e desigualdade econômica que atinge os homens negros. Portanto, é importante para elas se preservarem na busca pelo amor nos apps.

Apenas 28,6% das negras americanas são casadas, em comparação com 52,4% das brancas. Os dados do censo dos EUA de 2021 mostram que, proporcionalmente, as mulheres negras são maiores potenciais usuárias de aplicativos de namoro — e, por isso, mais expostas às suas consequências para a saúde mental. No Brasil, menos da metade dos negros se relacionariam com alguém da mesma raça, de acordo com o censo de 2010 (o mesmo dado referente ao levantamento de 2022 ainda não foi divulgado).

Uso frequente de apps de namoro pode levar à ansiedade e depressão. A expectativa para encontrar alguém ideal gera um estado de alerta constante, esperando mensagens e conversas, apontou uma reportagem de VivaBem de 2024.

Continua após a publicidade

Questões de autoimagem também podem ser agravadas pelo uso prolongado ou intenso dos aplicativos. Isso porque a busca por "matches" é viciante e desequilibra o sistema de recompensa do cérebro. Ou seja, é possível viver em um estado permanente de insatisfação, buscando a validação da próxima conquista para o seu bem-estar.

Deixe seu comentário

O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.