Após perder esposa no parto da filha, viúvo diz como chocolate uniu família
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Nem nos sonhos mais improváveis Jorge Klotz, 42, poderia imaginar o caminho que sua vida tomaria. Um amor que surgiu por acaso, o casamento repleto de cumplicidade, a chegada do primogênito Otto, 4, e a reviravolta dolorosa: sua esposa, Gleicimara, perdeu a vida logo após o parto da segunda filha, Lia, hoje com 2 anos.
Fiquei segurando a Lia recém-nascida ao lado da minha esposa enquanto ela estava tendo complicações, paradas... Foram oito horas até ela não aguentar mais.Jorge Klotz, empreendedor
A história desse pai chamou atenção Brasil afora e é inspiração para outras famílias, mas o que ninguém contou ainda é como tudo ficou depois da perda - do olhar da internet e da mídia a um acidente sério que o deixou temporariamente sem andar.

História de amor com final trágico
Tudo começou em um feriado na Bahia, quando Jorge, de São Paulo, e Gleicimara, de Minas Gerais, se conheceram em uma região paradisíaca perto de Itacaré. Eles se apaixonaram, casaram e ela seguiu a carreira acadêmica, enquanto ele geria uma escola de idiomas. Os anos se passaram e a família cresceu quando Otto nasceu.
No início de 2021, o casal comemorava os dois anos do primogênito e soube da segunda gestação. Jorge já tinha vendido a escola e, como apoio da esposa, abriu uma pequena fábrica de chocolates, a Kaê. E tudo parecia estar se encaixando, mas a felicidade foi interrompida.
Em julho de 2022, Gleicimara passou por um parto taquitócico - que acontece quando dilatação, descida e expulsão do feto se dá em menos de quatro horas, com contrações uterinas intensas e frequentes. Esse parto, conhecido como precipitado, aumenta o risco de lacerações, hemorragia puerperal, atonia uterina, sofrimento fetal. "Foi um parto muito rápido, durou doze minutos", conta o marido, que acompanhou tudo.
Logo após o parto, Gleice, como era chamada, não resistiu e faleceu.
Num instante perdi minha esposa. Me vi sozinho com uma bebê recém-nascida e um filho de dois anos, sem cabeça para trabalhar, para nada. Só sabia que precisava ficar junto com meus filhos o tempo todo.Jorge Klotz, empreendedor
A Bahia, que um dia representou alegria e começos, tornou-se um lugar de dor, então Jorge fechou a fábrica de chocolates e aceitou o apoio da família da esposa em Minas Gerais.

Recomeço para família
Três meses depois, uma mensagem chocou Jorge: o International Chocolate Awards Winners, de Nova York, havia premiado sua marca como um dos melhores chocolates do mundo. Detalhe: o chocolate premiado, de cupuaçu, era o favorito da mãe de Otto e Lia. O reconhecimento inesperado acendeu uma chama dentro dele: "Se estão me dizendo que sei fazer chocolate, vou continuar".
Ainda vivendo o luto, nos primeiros meses Jorge deixava a filha bebê dormir na casa da avó materna na maior parte dos dias, enquanto cuidava do filho mais velho. "Eu não tinha como ficar acordado dando de mamar e trabalhar no dia seguinte", revela. Aos poucos, a pequena dormia mais dias com o pai, até chegar na rotina familiar atual: de manhã as crianças ficam com a avó, à tarde o pai leva para a escolinha, e à noite ele dorme com ambos.
Família com axé e uma doce lição de vida
O termo "axé" significa "energia", "poder", "força" - e faz parte do slogan da marca de Jorge, mas não só: o viúvo mostra que, com amor, apoio e perseverança, a vida pode seguir com tudo isso. A paixão pelo chocolate, pela mulher e pelos filhos o fez retomar a produção e se manter, literalmente, de pé.

Em agosto de 2024, o trabalho com o cacau gerou outro fruto: Jorge foi convidado para o quadro "The Wall", do programa Domingão com Huck, oportunidade que deu à sua empresa a premiação de R$ 240 mil. Logo após à exibição, tinha fila na porta de sua fábrica, a marca ganhou mais de cem mil seguidores, e todos os chocolates foram vendidos. Mas foi aí que veio outro grande desafio.
Na volta da viagem a São Paulo, para gravação do programa, um veículo bateu na traseira do carro de Jorge, que rodou e capotou diversas vezes. As crianças estavam no carro, mas saíram ilesas. Jorge fraturou a coluna. "Fiquei de cama, depois na cadeira de rodas, até voltar a andar", diz.
Depois da recuperação, Jorge anda a passos largos: hoje sua marca tem nove prêmios, entre eles como uma das melhores chocolaterias do mundo, pela Academy of Chocolate, de Londres, um dos mais respeitados no setor.
Gleice tinha razão. Ela dizia para ele, todos os dias antes do trabalho: "vai lá fazer o melhor chocolate do mundo e traz um pedaço para eu provar'. "É uma paixão minha, mas faz parte da nossa história. A certeza que tenho é que preciso seguir fazendo chocolate," diz Jorge.

Assim como sua história pessoal, não dá para negar que seu trabalho foi notado de forma quase cinematográfica, mas estamos falando da vida real, e a dor da perda não desaparece com efeitos especiais. "A gente acha que está tudo bem, que passou, e de repente vem um dia terrível. Um dia em que tudo parece desabar de novo", confessa.
Ainda assim, ele segue cuidando do amor incondicional pelos filhos e da paixão pelo chocolate, sempre honrando a doçura de Gleice. Sua história se tornou um testemunho de que é possível recomeçar, mesmo diante das maiores perdas. "Sigo trabalhando o meu luto e o das crianças, não tem uma receita para isso. Ainda tô aprendendo".
3 comentários
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Camilla de Vilhena Bemergui
Exemplo de resiliência. Sucesso e doçura sempre!
Elias Coelho Macedo
Ele teve ajuda da tv para angariar fundos para sua empresa. Sorte dele, né?
Andrea Cristina de Souza Ribeiro
Depois de conhecer a história pelo programa, comprei para ajudar e me apaixonei! O chocolate é tudo isso e muito mais! Delicioso!