Não mono ou ficante premium: quais são as diferenças e compromissos?
De Universa
27/03/2025 12h00Atualizada em 27/03/2025 16h55
Uma recepcionista* de 22 está há tempos nos aplicativos de namoro, mas não consegue embarcar em uma relação mais longa. "O problema parece ser o fato de que eu quero ter um relacionamento monogâmico, mas as pessoas da minha idade não querem mais nada exclusivo", diz.
Segundo ela, os usuários têm colocado nos perfis que são "não monos". "Até saí com alguns meninos e meninas não monogâmicos, mas quando comecei a gostar de uma delas eu decidi terminar. Não sei se é para mim."
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A impressão da recepcionista não está enganada. A não monogamia está em alta, virou pauta de discussão em perfis especializados e muita gente ficou curiosa em experimentar o formato de relação. Principalmente nos aplicativos de namoro.
Um levantamento feito pelo aplicativo Happn para Universa com aproximadamente 1.500 usuários mostrou que 45% dos brasileiros buscam por um relacionamento não monogâmico dentro da plataforma. Além disso, apesar de 73% dos entrevistados terem dito que nunca estiveram num relacionamento não exclusivo, 55% falaram que gostariam de experimentar esse formato de relação.
Apenas em 2023, o número de pessoas que usou o termo "não monogamia" em suas bios cresceu 114% em comparação ao ano anterior.
Já uma pesquisa feita pelo Tinder, em outubro de 2023, foi constatado que as mulheres colocam "não mono" em seus perfis 23% a mais que os homens. A palavra é mais popular entre os usuários dos 23 a 27 anos, que utilizam o termo 20% a mais do que os da faixa dos 28 a 32 anos e 70% a mais que os de 18 a 22 anos.
Não monogamia não é bagunça
A não monogamia é um guarda-chuva que abarca várias dinâmicas diferentes de relacionamentos amorosos não exclusivos, sendo as mais comuns as relações abertas, em que as pessoas podem ficar com outras sem um envolvimento emocional, ou relacionamentos de poliamor, em que é possível ter várias relações simultaneamente.
Dentro desse conceito, cada casal tem os seus acordos e tipos de contratos. Mas um não tem posse sobre o outro e a dinâmica implica uma simetria, em que ambos podem se envolver com outras pessoas.
A não monogamia está em alta porque a pandemia, bem como a era digital, aceleram mudanças de comportamento que já vinham acontecendo. As plataformas, como um produto que segue tendências, tendem a seguir o que as pessoas estão buscando.
E ficante premium?
A estudante Bruna*, 23, estava superenvolvida com o cara que ela estava saindo há três meses. Tudo dava a entender que eles iriam namorar. Ele dizia que era uma pessoa não monogâmica, o que não era um problema para ela. Mas, quando o rapaz falou quais eram as condições, ela não ficou muito feliz: "Você não vai conhecer meus amigos nem minha família. Também vamos nos ver apenas durante a semana".
"Para mim, isso não é um relacionamento. É apenas mais uma forma de ter um ficante, sem qualquer tipo de comprometimento", conta a garota.
Bruna conta que os amigos dela disseram que, na verdade, o pretendente não queria assumir qualquer tipo de relacionamento com ela. Nem mesmo um não exclusivo.
É que, por mais que o casal possa conhecer outros parceiros, a não monogamia ainda é um tipo de relacionamento, em que se espera um compromisso. E se é uma relação, tem regras implícitas e explícitas, que podem ser quebradas ou renegociadas no fluxo da vida.
Porém, é visível que há um uso leviano do termo "não mono" nos aplicativos de relacionamento, muitas vezes para passar uma imagem de "desconstruído".
Bruna, que nunca foi avessa à ideia de uma relação aberta, sente que foi isso que aconteceu com ela. "Ele queria uma ficante premium", afirma. A estudante, que já estudou o assunto, acredita que há um desconhecimento sobre o que é a não monogamia e um "sequestro" do termo, que não é bom para ninguém.
*Nomes omitidos ou trocados para preservar as entrevistadas.
Fonte: Ligia Baruch, doutora em Psicologia pela PUC-SP e autora do livro "Tinderellas: o amor na era digital" (Ed. e-galáxia, 2019)
*Com reportagem de novembro de 2023