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'Tiques do TikTok': trend pode ter gerado espasmos coletivos em jovens
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O que poderia explicar uma "epidemia" de tiques que surge de uma hora para outra, atingindo milhares de jovens em diferentes países, principalmente garotas e adolescentes trans e não binários?
Eles começam a piscar, tossir e sacudir a cabeça ou os braços, sem controle sobre seus movimentos, proferindo frases desconexas ou palavras aleatórias. Os pais, desesperados, ficam sem saber o que fazer. Esse mistério recente, investigado mais a fundo por pesquisadores da Universidade de Calgary (Canadá) e da UCL, em Londres (Reino Unido), foi tema de uma reportagem publicada esta semana no "The New York Times".
Vamos às pistas:
- Os tiques surgiram durante a pandemia ou logo no início da retomada das aulas.
- Os tiques eram complexos: espasmos e movimentos em várias partes do corpo, acompanhados de assobios ou palavras repetidas.
- Os jovens vinham vivenciando isolamento, estresse e uso maciço de redes sociais.
- A maior parte deles tinha diagnósticos ou sintomas anteriores de transtornos mentais, como ansiedade, depressão e síndrome de estresse pós-traumático.
Consegue imaginar o que pode ter acontecido? Acha que poderia ser um vírus ou algum tipo de contaminação ambiental? Ou a explicação estaria nas emoções?
História da humanidade
Surtos semelhantes acontecem na humanidade há séculos. Tremores, paralisias, "convulsões" e cegueira temporária são algumas das manifestações físicas e neurológicas descritas desde os antigos gregos (histeria) até Freud (conversões).
Sintomas aparentemente inexplicáveis podem contagiar uma população rapidamente. Com as redes sociais, o espalhamento desses quadros, que antes acontecia em escala mais limitada (uma sala de aula, um bairro), passa a ter um alcance gigantesco
Já está bem estabelecido o impacto que ansiedade, estresse ou um trauma podem ter no sistema nervoso central, gerando perturbações como transpiração excessiva, aperto no peito, taquicardia e falta de ar. Mas, quando os sintomas são mais peculiares (como paralisia ou tiques), essa relação não parece tão clara e direta.
Mais curioso é o fato de esses tiques atingirem simultaneamente milhares de jovens nos quatro cantos do mundo. Isso sugere algum tipo de pressão que está sendo dividida e compartilhada por grupos distintos, o que poderia apontar para uma situação sugestiva de uma doença psicogênica de massa. Quem se lembra dos formigamentos e desmaios enfrentados por jovens em algumas campanhas recentes de vacinação?
Uma trend no TikTok
Os especialistas começaram a suspeitar de uma fonte comum para todos esses casos. E a resposta, por incrível que pareça, estava no TikTok, talvez a rede social mais popular hoje entre os mais jovens.
Os pesquisadores identificaram uma trend de vídeos de jovens contando e mostrando que tinham síndrome de Tourette, com padrões de tiques e frases muito semelhantes às encontradas entre os pacientes. Até mesmo a cantora Billie Eilish, um ícone para essa geração, que revelou enfrentar a condição, tinha uma série de vídeos com seus tiques compilados e exibidos nas redes sociais (veja abaixo). Segundo o NYT, vídeos com a hashtag "Tourette" alcançaram 7,7 bilhões de visualizações na época.
E o que é a síndrome de Tourette? É um distúrbio neurológico, que se manifesta ainda na infância, em que a pessoa apresenta tiques repetidos e involuntários, que podem ser motores ou vocais (menos comuns). Esses tiques podem desaparecer sozinhos ou permanecer na vida adulta. Recentemente, um atual participante do BBB-23, o lutador Antônio Cara de Sapato, também contou ter a síndrome.
Acontece que, na verdadeira síndrome de Tourette, os tiques são simples (aparecem, em geral, em uma única parte do corpo), começam gradualmente ainda na infância, e os garotos são muito mais afetados do que nas garotas.
Já nos "Tiques do TikTok", os especialistas encontraram uma apresentação mais exuberante e complexa (com vários tipos de tiques motores e vocais ao mesmo tempo), de instalação aguda, e muito mais frequentes entre as garotas.
Ou seja, não era uma epidemia de Tourette, e, sim, de algo que lembrava a condição.
Vulnerabilidades
Mas por que alguns adolescentes são particularmente mais influenciados pelos vídeos?
Os dados mostraram que jovens com transtornos mentais eram mais vulneráveis a desenvolver os novos tiques:
- 87% dos casos aconteceram em garotas, um padrão já encontrado em outros quadros de doença psicogênica de massa.
Uma das hipóteses é que as meninas buscam uma identificação maior com o grupo (trocam mais, falam mais) e têm maior empatia pelas dores e sofrimento de outras pessoas, o que as tornaria mais vulneráveis a esse tipo de contágio
Essa maior vulnerabilidade também apareceu em jovens não binários e trans (dependendo do país avaliado, 10% a 40% dos casos aconteciam nesse grupo), o que pode mostrar o impacto que estigma, preconceito e discriminação podem ter nas emoções e saúde mental dessa população.
A pandemia, o isolamento e o aumento de consumo de redes sociais podem ter sido importantes catalisadores desse surto de tiques exuberantes. Importante lembrar que esses jovens não sabiam o que estava acontecendo e não conseguiam controlar a angústia gerada pelos sintomas. Muitos precisaram de acompanhamento psicológico e médico por meses para superar essa questão.
A melhor noticia é que, da mesma forma que os tiques pipocaram da noite para o dia, eles desapareceram rapidamente com o retorno às rotinas habituais da vida dos jovens, o que pode ser um bom indicador da resiliência que esses adolescentes têm frente a situações adversas.
E um alerta para o futuro é entender o poder de contágio que determinados comportamentos e situações podem ter nas redes sociais, principalmente para grupos de crianças e adolescentes mais vulneráveis do ponto de vista emocional. Fenômenos como se machucar, se engajar em jogos perigosos e arriscados (sufocamento) ou ter um quadro de descontrole de tiques são alguns dos exemplos.
Se de um lado é importante que celebridades e influenciadores possam falar abertamente sobre suas questões emocionais e doenças nas redes, abrindo um espaço de identificação e acolhimento para muita gente, do outro lado, é imperativo que pais, professores, profissionais de saúde, influenciadores e gestores das redes identifiquem mais rapidamente essas trends e possam oferecer contrapontos e alternativas para dar suporte e esclarecimentos aos jovens. É isso!
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