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Caso Vinicius Júnior: como o racismo impacta a saúde mental?

Vinicius Júnior sofreu ataques racistas em Valencia x Real Madrid; Vini ainda acabou expulso - Ivan Terron/Europa Press via Getty Images
Vinicius Júnior sofreu ataques racistas em Valencia x Real Madrid; Vini ainda acabou expulso Imagem: Ivan Terron/Europa Press via Getty Images

Do VivaBem, em São Paulo

22/05/2023 19h19

Casos de racismo, como os vividos pelo jogador Vinicius Junior, têm intensos impactos à saúde mental das vítimas. Sentimentos de ansiedade e depressão são comuns, e pioram se as violências seguirem com o tempo.

Vinicius sofreu aos menos 11 episódios de racismo desde 2021. Segundo o psicólogo Bruno Mota, doutorando em psicologia na UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), a impunidade é um agravante para as consequências emocionais.

A nossa alegria enquanto comunidade negra está sempre testada pelo mundo branco, que parece não aceitar a nossa potência de vida. Toda situação em que o branco se sente ameaçado, há uma contra resposta por meio de ameaças racistas. Bruno Mota, psicólogo e coordenador regional Sudeste da Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os) e Pesquisadoras(os).

Essas ofensas podem ser percebidas pela vítima ou mesmo antecipatórias (quando ela fica em estado de vigilância para se proteger da rejeição e da recriminação). Para algumas pessoas, elas chegam até a serem internalizadas.

Já outras pessoas, alienam-se dos ataques como uma forma de defesa psíquica. Mas isso não anula o sofrimento. "Ela se defende recusando a existência do racismo e isso leva a um estado depressivo, de ansiedade, porque não sabe de onde vem esse ataque", explica Bruno Mota.

Quais os impactos à mente?

O discurso racista gera desumanização da população negra. Esse processo é conhecido como coisificação, como se a pessoa fosse reduzida a um objeto. "Quando a gente pega a história do processo transatlântico, arrancavam-se comunidades étnicas com toda a sua história, riqueza, e aí se reduzia a um objeto. Objetifica-se aquela pessoa e isso vai fomentando uma fragilidade na identidade pessoal e coletiva", diz o psicólogo.

As ofensas geram baixa autoestima, capazes de fazer com que a pessoa tenha a imagem de si própria distorcida e desvalorizada.

E a hipervigilância também é frequente. Sem saber quando e de quem as ofensas podem surgir, a pessoa tende a ficar em constante estado de alerta. Isso gera tensão e causa sentimentos de ansiedade.

O racismo é sorrateiro. Mesmo no auge da nossa alegria, felicidade ou conquista, a violência racial está à espreita e nos tira a humanidade. Bruno Mota, psicólogo

Situações traumáticas, sobretudo as de muita violência —como a intensa repressão policial sob a qual a população negra vive—, também colocam outras pessoas pretas em alerta. Medos ligados a essas vivências podem reproduzir aflições semelhantes ao quadro de estresse pós-traumático: quando há aumento expressivo da ansiedade após a exposição a um evento que gerou trauma.

Culpa nunca é da vítima

O mais importante nessas violências é não acreditar ser apenas papel da vítima buscar por medidas que a ajudem a superar o sofrimento, segundo a psicóloga Ivani Oliveira, membro do CFP (Conselho Federal de Psicologia) e mestre pela PUC-SP.

Gerar proposta de autocuidado ou apenas de cuidado individual responsabiliza a vítima por aquilo que acontece e precisamos acolher, reconhecer, entender que isso vem de um agente externo e não da pessoa vitimada. Ivani Oliveira, psicóloga

Essa responsabilidade deve ser compartilhada. E cabe, inclusive, aos locais onde as violências ocorreram pensarem em propostas para discutir os seus agentes causadores (processo conhecido como profilaxia psicológica).

Impactos em todas as esferas

O psicólogo Luís Henrique Marcos Costa explica que as consequências centrais do racismo são:

  • Desamor: vítimas acreditam não serem dignas de receberem amor;
  • Desvalor: pessoas negras não se sentem valorizadas;
  • Desamparo: ausência de amparo para combater a violência, inclusive na esfera pública.

Isso traz consequências psicólogas e físicas, mas também comportamentais, como o aumento do isolamento e do risco de suicídio —que foi 45% maior na população negra em relação à branca entre 2012 e 2016, segundo pesquisa do Ministério da Saúde e da UnB (Universidade de Brasília).

Há reflexos sociais, como o fato de pessoas pretas serem alvos frequentes de abordagens policiais violentas, além de serem seguidas ao entrarem em mercados, shoppings e em outros pontos comerciais. Sem contar as consequências profissionais, com menores oportunidades e visibilidade.